Ailton Vilela Primo
Prosas, versos e crônicas frutos de uma alma inquieta e livre.
Textos
O ANFITRIÃO

Houve um tempo, até meados do século passado em que os agentes sanitários, vinculados ao ministério da saúde andavam pelo Brasil combatendo doenças como malária, Chagas, febre amarela. Andavam de uniforme cáqui , com um tanque de veneno nas costas, ligado a um borrifador aplicando aquele produto fedorento (BHC) nas casa e as instalações das fazenda com o intuito de matar os agentes transmissores. Em geral eram bem recebidos pelos moradores devido à nobreza da causa. Quando a noite os surpreendia ainda na lida, costumavam dormir lá mesmo pela roça, desfrutando a cordialidade e hospitalidade dos fazendeiros e agregados. Silvino e Barroso já estavam naquele emprego há mais de dez anos. Naquele dia particularmente quente, tinham andando uns 20 quilômetros aspergindo aquela fedentina pelas redondezas. Resolveram pernoitar na fazenda Monjolo, propriedade de seu Napoleão, próxima à cidade de Itaberaí em Goiás. Pediram pouso, e foram instalados num pequeno quarto na antiga casa dos peões. Napoleão era um homem meio ranzinza, viviam só ele e a mulher naquele casarão. Tinha uma fama de avarento que o perseguia desde a juventude. Pão duro de dar dó. Depois de descansar um pouco, os dois amigos voltaram para a varanda para esperar o jantar. E toca de esperar. Sete horas, oito, oito e meia, nove e nada. Nem sinal de comida. A fome torturava os dois agentes, que ali, naquele ato representavam o governo federal, mas que nada lhes valia. Primeiro a prosa estava boa, contaram causos, riram à farta, mais a medida que a fome apertavas, as histórias foram raleando, começaram a aparecer com frequência expressões do tipo “pois é né!, É isso aí” seguidas de longas pausas, e comida nada. Silvino tomava um remédio para hipertensão arterial, mas vez por outra se esquecia. Virando-se para Barroso a certa altura da conversa, disse: “Esqueci meu remédio, vou pegar”. Barroso então ergueu a voz e perguntou: “Silvino, não faz mal tomar esse remédio com o estômago vazio?”. Napoleão nem se tocou, remexendo-se na cadeira, pigarreou, e, levantando para ir dormir disse com ar displicente: “Faz nada! Até amanhã pro cêis.” – Passando pela cozinha pegou a marmita que a mulher tinha deixado no canto da mesa, e foi comer lá no quarto”. Pela manhã os dois funcionários do governo, putos da vida resolveram ir embora sem se despedir. Mas ao entrarem no velho Jeep da antiga SUCAM, ouviram a voz de Napoleão que já estava no curral ordenhando as vacas. “E o pernoite, quem vai pagar o pernoite?”- Os dois se entreolharam e, em que pese o ridículo da situação, caíram numa sonora gargalhada enquanto aceleravam para a cidade, loucos para tomar café. Para fins de registro, no caminho para Itaberaí, anotaram na caderneta de atendimento: “Fazenda Monjolo, se os pernilongos não te matarem, a fome mata”.
Al Primo
Enviado por Al Primo em 27/03/2021
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