Ailton Vilela Primo
Prosas, versos e crônicas frutos de uma alma inquieta e livre.
Textos
LÁZARO

Quando nos mudamos para aquela vizinhança, ele já vivia por lá há uns cinco anos, era chamado de Lázaro, mas ninguém tinha certeza se era esse o seu nome verdadeiro. Era um mulato com cerca de 25 a 30 anos, estatura média, sujo, maltrapilho, e exalava um forte odor de precaríssima higiene. Passava seus surtos esquizofrênicos, que podiam durar dias, dialogando com personagens de sua imaginação. Às vezes passava um bom tempo batendo papo com um poste ou uma simples carteira de cigarros jogada no chão. Trazia pendurados ao corpo dois assentos sanitários de função absolutamente desconhecida. Lázaro era inofensivo, uma alma boas dentro de seus martírios. Seu Irani, um comerciante local deixava que ele dormisse num pequeno quartinho de que dispunha em seu terreno. De sua alimentação todos nós cuidávamos. Umas duas vezes por semana o segurávamos meio à força para tomar um banho, ao que ele era totalmente avesso. Nas noites mais quentes, Lázaro costumava dormir ao relento, debaixo de alguma marquise nas redondezas. Numa dessas noites ainda sem sono, embora já fosse madrugada, ouviu alguém pedindo socorro. Sentou-se e viu um homem correndo pela rua, vindo em sua direção. Uma motocicletas com dois ocupantes virou a esquina em perseguição ao homem. Lázaro num impulso inexplicável, saiu da sombra que o protegia e correu em direção ao fugitivo, gritando em altos brados “Acode gente! Estão atacando meu sobrinho. Corre para cá Bernardo, venha que o tio te protege”. Provavelmente Bernardo era uma figura de seus delírios. O fugitivo passou por ele e seguiu correndo pela rua. As luzes começaram a acender. Moradores mais corajosos se aventuravam a sair nos portões para ver o que era. Nesse instante, os perseguidores amedrontados, deram meia volta na motocicleta. Mas antes de se afastarem, um deles apontou a arma na direção a Lázaro e puxou o gatilho. O disparo o atingiu no peito. Morreu antes de ser socorrido. Nunca ninguém soube quem era aquele fugitivo, que num golpe de sorte teve sua vida salva pelos delírios e pela coragem de um pobre louco. Demoramos a nos acostumar com sua ausência. Passei um bom tempo perguntando mentalmente às carteiras de cigarros jogadas no chão: “Nosso amigo tem dado alguma notícia? Se falar com ele, diga que tenho saudades”.
Al Primo
Enviado por Al Primo em 24/03/2021
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