Ailton Vilela Primo
Prosas, versos e crônicas frutos de uma alma inquieta e livre.
Textos
O PREÇO DA TEIMOSIA

Nem nos mais recônditos sonhos, pensei vivenciar os fatos atuais. Já estou chegando aos 70, e passei por muitas situações difíceis, políticas, econômicas e sanitárias. Sobrevivi a todas elas sem muito sacrifício. Hoje, no entanto, ao ir à farmácia comprar um ansiolítico para minha mulher, confirmei com o farmacêutico qual é o grupo de medicamentos mais vendido durante essa crise sanitária. Logo depois da lista das drogas diretamente ligadas ao vírus, vem o grupo de remédios ansiolíticos e antidepressivos. O povo está literalmente enlouquecendo com esse confinamento interminável, e com o massacre de informações desencontradas e divulgadas pela mídia e redes sociais. Tantas proibições empíricas, tantas recomendações sem sentido. Fecha o comércio não essencial. Até nos supermercados lacraram seções inteiras do que não é comida. Em que isso pode interferir na transmissão do famigerado vírus? Interfere mesmo é no direito do cidadão de comprar o que precisa. Um brinquedo para o seu filho, pilhas para o controle de sua TV, ou o que seja. Esta semana concluí que precisava cortar meu cabelo. A barbearia que frequento fica a 200 metros de minha casa, mas está com as portas fechadas. Resolvi perguntar na lanchonete da esquina, e fui informado que eles estavam atendendo de maneira reduzida, e clandestina por uma porta secundária que dá para uma galeria ao lado. Fui lá, bati na porta, me atendeu o meu barbeiro Rivaldo, com todo o aparato de segurança: máscara, face shield, luvas, e me ofereceu álcool em gel, e apontou a cadeira para mim. Enquanto conversávamos ali informalmente antes dele começar meu corte, Rivaldo disse: “Doutor, não estou entendendo mais nada. Já fiz muita coisa escondido na minha vida. Mas, trabalhar é a primeira vez. E não tenho alternativa, faço hoje para comer amanhã, não tenho saída”. Concordei plenamente com ele. – Essa sucessão de lockdowns indiscriminados, contínuos ou alternados já se provaram de pouca eficiências pois colidem de frente com o direito do cidadão de trabalhar para sustentar sua família. Os governantes só deveriam decretá-los se o Estado tivesse condições de pagar as despesas dele, alimentação, contas de água, luz, telefone, impostos. Não podem condena-lo a passar necessidades e se esquivar das responsabilidades de ampará-lo. E, todos nós sabemos que o governo não tem, e nunca terá condições para tal. Se querem combater as grandes aglomerações de lazer tudo bem. Festas com grande número de pessoas, shows artísticos, praias lotadas, tudo bem. Até as celebrações religiosas são passíveis de discussão, mas o trabalho não. O presidente Bolsonaro tem lá os seus defeitos, seus deslizes de retórica, expressões rústicas e até grosseiras. Mas nesse ponto ele sempre teve razão. A segurança sanitária e a economia tem que ser tratadas com a mesma importância. As condições sanitárias piorarão com o aumento da miséria. Haja visto alguns de nossos vizinhos fronteiriços.
Al Primo
Enviado por Al Primo em 20/03/2021
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