Ailton Vilela Primo
Prosas, versos e crônicas frutos de uma alma inquieta e livre.
Textos
LISURA

Severino viu a jaqueta esquecida numa cadeira do aeroporto de Brasília. Talvez algum passageiro tivesse ido ao banheiro e a deixado ali. Continuou fazendo a limpeza do recinto. Essa era sua função, faxineiro. Quando terminou a tarefa, cerca de duas horas depois, a jaqueta continuava lá. vou leva-la para o setor de achados e perdidos. Ao pega-la, notou um volume em um dos bolsos. Talvez não devesse mexer, mas a curiosidade o venceu. Tirou dali um envelope amarelo, que continha no seu interior uma quantidade grande de notas verdes. Daquelas que Severino já tinha visto na televisão. “dólares” disse ele baixinho. Desceu para o subsolo onde fica a entrada dos funcionários, e onde cada um tinha um armário para guardar as roupas e vestir o uniforme antes da jornada de trabalho. Guardou a jaqueta enquanto resolvia o que fazer com ela. Trancou o armário mas não saiu dali. Ficou pensando nas possibilidades para aquele dinheiro ter sido esquecido naquela cadeira. Algum turista distraído poderia ter esquecido. Poderia ser alguém indo fazer algum tratamento no exterior, e na aflição ter esquecido a jaqueta. O certo na cabeça do faxineiro era que o dinheiro não lhe pertencia. Não tivera nem a curiosidade de contar. Levar para o setor de achados e perdidos seria o mais correto, mas Severino conhecia a turma que trabalhava lá, poderiam simplesmente sumir com o dinheiro. Vou esperar uns dois dias, se não aparecer o dono, ou ninguém reclamar pensarei em como resolver. Voltou de ônibus para sua casinha simples na cidade satélite do Gama, contou o ocorrido a Celeste, sua mulher que aprovou a atitude do marido. Não é nosso disse ela. Alguém pode estar precisando muito deste dinheiro. O dono vai se manifestar. Nenhum dos dois pensou na penúria em que viviam, que aquele dinheiro poderia aliviar as coisas por um bom tempo. Coisa de gente simples, honesta e trabalhadora. No dia seguinte Severino tinha acabado de almoçar no refeitório dos funcionários e se preparava para voltar ‘a limpeza do saguão quando notou um senhor andando de lá para cá, procurando alguma coisa. Aproximou-se e reparou bem, já tinha visto aquele homem gordo, suarento e careca na televisão mas não lembrou de quem se tratava. Abordou o homem com cortesia: “posso ajudar o senhor? está procurando alguma coisa?” o homem com uma cara aflita respondeu: “Sim, estive aqui ontem conversando com um amigo, e esqueci minha jaqueta em uma dessas cadeiras” e reparando no uniforme do funcionário emendou: “o senhor por acaso viu alguma coisa?” Então Severino resolveu acabar com a agonia do cidadão. Sim, encontrei a jaqueta e guardei no meu armário. Venha comigo. O estranho o acompanhou até o subsolo e Severino foi buscar a jaqueta. Ao recebê-la, o homem procurou freneticamente nos bolsos, e sorriu feliz quando viu o envelope. Enfiou a mão no bolso, tirou uma nota de cem reais e deu a Severino dizendo: “isso é um presente pela sua honestidade, coisa rara hoje em dia”. Severino agradeceu e saiu feliz pensando: “esse dinheiro agora é meu, esse eu posso gastar”. Alguns dias depois Assistindo ao noticiário na televisão, Severino viu o mesmo homem gordo sendo preso pela Polícia Federal. Era ele mesmo, o Deputado Fleury. O dinheiro era propina. O faxineiro pensou um pouco, depois disse baixinho: “O dinheiro não era dele, mas também não era meu. Lucrei honestamente cem reais”. Assim pensam e vivem as pessoas honestas. Agiu certíssimo Severino.
Al Primo
Enviado por Al Primo em 13/03/2021
Alterado em 13/03/2021
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