Ailton Vilela Primo
Prosas, versos e crônicas frutos de uma alma inquieta e livre.
Textos
SÓ TEM JACARÉ...

     O rio Araguaia atrai nas férias de Julho, grande número de turistas, que se instalam nos hotéis às suas margens, em acampamentos nas praias de areia branca, ou simplesmente em solitárias barracas espalhadas pelas suas centenas de quilômetros. É o programa preferido de muitas famílias que ali chegam em busca de lazer e tranquilidade, e de uma boa pescaria. Já foi um rio com enorme quantidade de peixes, porém a falta de consciência  e de fiscalização  facilitou para que a pesca predatória fizesse seu estrago ao longo de muitos anos. Atualmente  houve um endurecimento na legislação com finalidade de proteger e recuperar o rio. Só é permitida pesca artesanal, os peixes devem ser consumidos no local, não se permitindo o transporte de pescado para outras cidades. Foi totalmente proibida a caça de outros animais como jacaré, tartarugas, pacas, e outros componentes da fauna ribeirinha. É crime inafiançável. Graças a essas  leis, e uma fiscalização um pouco mais eficiente, o rio tem recuperado aos poucos sua população de peixes.         
              A  família Peixoto, donos de uma empresa de laticínios, fazia ali todos os anos um acampamento para deleite de seus diretores, funcionários e alguns convidados. Era uma estrutura bem montada, as barracas tinham camas dentro, um gerador a diesel era responsável pela iluminação e aquecimento de água nos chuveiros elétricos. Sanitários bem montados. Era bem confortável para um acampamento.  Tudo sob a direção do Sr. Vanderley Peixoto, um homem que era a paciência em pessoa. Animado, com ele não tinha tempo ruim. Naquele dia levantou cedo, entrou na canoa e foi com o piloto, verificar as "pindas",  Iscas em anzóis grandes com linha grossa que eram lançadas no leito do rio e amarradas a galhos de árvores, ou raízes. Numa delas encontrou um jacaré, de mais ou menos um metro,  que de tanto se debater, já estava morto. Jogou o bicho na canoa e chegando ao acampamento entregou ao encarregado da cozinha para preparar. Seria o almoço daquele dia.
             Era mais de meio dia quando Vanderley avistou uma canoa que subia o rio e rumava para o seu acampamento. Era comum virem amigos de outros acampamentos  para passar o dia com eles para uma boa conversa, jogo de cartas, bebidas fartas, partindo ao final da tarde.  Quando a embarcação aproximou-se, teve um calafrio. Era a fiscalização da agencia ambiental. Mal deu tempo dele correr para o rancho e mandar esconderem o jacaré que a essa altura já estava a meio cozimento.  foi um corre corre. Os fiscais foram recebidos e convidados a sentar e tomar uma cerveja. Alguns já eram conhecidos de anos anteriores.  Ali ficaram bebendo por umas duas horas, e não aparecia comida, nem ao menos um tira-gosto. Já bêbado um dos fiscais chamou Vanderley de lado e disse "Paramos aqui para almoçar com vocês, mas parece que não vai ter almoço. O Senhor não teria alguma coisa aí pelo menos para darmos uma forrada no estômago? " Vanderley meio sem jeito disse "até tem, mas estou receoso da reação de vocês. O almoço tá pronto, mas é carne de jacaré". O fiscal arregalou os olhos e disse  "Jacaré!, manda servir que é meu prato predileto".  Foi servida a iguaria, tudo ficou em paz, a conversa reanimou,  e a temida multa não veio. 
Al Primo
Enviado por Al Primo em 12/03/2019
Alterado em 13/03/2019
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